`O espectador é aquele que acompanha a criação de sentido na imagem e se encanta com todos os outros sentidos que não foram propositalmente criados`.
Fazer um filme é sonho alto de muita gente. É maneira de espalhar ideais, expressar sentimentos, inventar teorias, deixar um pedaço seu para o resto do mundo; fazer arte. Fazer um filme, em nossa realidade autoral brasileira, é perseguir, batalhar, persistir, esperar durante sabe-se lá quantos anos por prêmios, parcerias e incentivos. Sendo assim, não é de se surpreender que muitas vezes se estabeleça uma íntima relação de paixão entre criador e criatura; cineasta e seu batalhado filme.
Foi só em maio, quando a diretora de cinema Lina Chamie apresentou para os alunos de Audiovisual do Senac seu segundo filme A Via Láctea, que me atentei para a complexidade e sensibilidade de tal fato.
Um cineasta cria, estuda, desenvolve, pensa, respira sua obra. Cada um tem suas pretensões e diferentes objetivos, mas inegavelmente compartilham o desejo de que seu filme seja visto e, de preferência, entendido pelo espectador. Entender talvez não seja a melhor palavra, interpretar seria uma escolha melhor.
Dentro de um bom filme nenhuma cena é irrelevante, nenhum enquadramento ou ruído é vazio de significado. O cineasta espalha suas intenções em cada um dos 24 fotogramas de segundo e cabe ao espectador absorver esses sentidos e moldar sua própria impressão sobre a obra como um todo. Se vinte mil pessoas assistem a um filme, no final, serão vinte mil interpretações, não necessariamente diferentes de sentido, mas cada uma única em sentimentos e sensações.
Pergunto-me, então, como deve se sentir esse tal criador no momento em que sua criatura, que antes existia coesa em seu imaginário, é mostrada a outras pessoas e submetida as suas interpretações. Ser compreendido ou elogiado há de inspirar grande sensação de satisfação enquanto as críticas ao mesmo tempo em que descontentam devem fazer refletir. É necessário um certo desprendimento da obra para que se possa visualizar sua repercussão. Um filme não pode ser considerado uma obra completamente fechada, ele começa no cineasta, se desenvolve na tela, mas acaba na cabeça de cada espectador.