Um lance de dados jamais abolirá o acaso. Com esse poema, Mallarmé, referência na literatura de vanguarda e criador da poesia visual, inspirou gerações de poetas, artistas e leitores que se fascinaram pela tessitura das formas e sons do célebre poema com sentidos enigmáticos, com os mistérios que a leitura da obra nos provoca.
O acaso - a dúvida que gera incerteza de resposta e o sentido de aleatoriedade - é componente que permeia os percursos e os embates do ato criativo de inúmeros artistas. Mesmo com toda uma reflexão anterior, a obra de arte é resultado do acaso e de um emaranhado de experiências, dos erros e acertos que funcionam com lances, e de tentativas cuja somatória revela algo. Assim, quando uma obra é iniciada não se sabe exatamente como ela findará; há nesse processo um jogo de expectativas, ansiedades e revelações que funcionam como estrutura de sustentação da matéria física da idéia.
Ao pensar no conjunto da obra de Ivan Serpa, analisando os percursos de uma breve e densa carreira, podemos avaliar que ele produziu uma obra repleta de lances e acasos na busca de respostas para suas interrogações. Os dados de Serpa, neste caso, foram a pintura, o desenho, a gravura, os objetos e outros experimentos artísticos.
Ivan Serpa foi um artista que trabalhou incessantemente e deixou uma vasta obra. Realizou diversos lances e potencializou uma produção aberta demarcada pela passagem de um estado de coisas, de um repertório constituído pela diversidade formal.
Aderiu ao não-figurativismo no final da década de 1940, foi considerado pioneiro do concretismo no Brasil e até a década de 1960 esteve ligado a este movimento. Teve sua fase negra com elementos de denso teor expressionista, desenvolveu uma série erótica e no final dos anos 60 elaborou trabalhos de caráter neoconcreto. Em outras palavras, o lance de dados de Serpa não teceu limites, ele foi o próprio momento de transição, marcou a ruptura e a travessia de um conteúdo para o outro.
Essa mostra que revela alguns dos percursos de Serpa marca o aniversário de um ano de funcionamento da galeria Amarelonegro, um espaço necessário que vem oxigenar o circuito de arte no Rio de Janeiro, com base numa atuação competente de Áurea Katsuren e Nara Reis.
Amplia-se a importância do evento com a participação de Márcio Shimabukuro, o Shima, como é mais conhecido, apresentando pela primeira vez no Rio uma performance autoral, um trabalho com referências diretas à obra de Ivan Serpa. Esse confronto entre a emblemática obra de Serpa e a instigante atuação de Shima nos expõe a uma atitude de inquietação, a movimentos e metáforas que se ampliam e se combinam numa dimensão puramente conceitual.
Esse encontro será marcado pelo acaso, pelo momento da realização, pela simbiose de atitudes concretas. Qual o resultado disso? Ainda não podemos saber. Façamos nossos lances.
Exposição Ivan Serpa - Quantos Percursos?
Onde: Galeria Amarelonegro - Ipanema, RJ.
Quando: de 9 de Setembro a 4 de Outubro.
+info: 21 2247.3086